Monografia com erros de Português??

Imagine, você, um trabalho científico entregue todo bonitinho ao orientador. Um tema interessantíssimo, metodologia bem desenvolvida, citações a perder de vista dos melhores autores sobre o assunto. A formatação das páginas está perfeita, as margens espetacularmente calibradas, o tamanho da fonte das citações com recuo precisamente definidas. As referências bibliográficas ocupam seis, sete, oito páginas, demonstrando que aquele trabalho está embasado com firmeza. Um título requintado, preciso, claro.

A cópia finalizada entregue aos componentes da banca examinadora está encadernada com qualidade; é um calhamaço grosso, um trabalho realmente pesado, bem dividido, bem embasado. O orgulho do aluno! O orgulho do orientador! Até que os coordenadores, no conforto de suas casas, abrem o trabalho para conferir o conteúdo. E já na introdução, deixam a xícara de café tremer num espasmo de susto: “O objetivo deste trabalho foi o de pesquiZar entre os entrevistados…”. PESQUIZAR?? Assustados, se dão o direito de pensar que pegaram um trabalho da sétima séria por engano e voltam à capa, onde fatalmente se lê: “monografia de conclusão de curso…”.

Se meu mundo caiu…

Os benditos erros de gramática que perambulam os documentos e monografias.Poucos lugares dão mais destaque a um erro grosseiro de português do que uma monografia. Por seu caráter científico já com grande rigor, o conteúdo de um trabalho deste tipo será revisado com muita atenção pelos examinadores que compõem a banca, sendo que os erros serão levantados e apontados. Imagine então se forem encontrados erros de português!

A última etapa, diferente do que se pensa, não é a formatação do texto final, mas, sim, a revisão linguística do mesmo. “Como assim?” A revisão linguística é, a grosso modo, uma correção de português realizada por um profissional qualificado para tal. Ele lerá o texto da primeira à última letra, buscará erros de português e de concordância e sugerirá as alterações necessárias. Importante frisar que ele não corrigirá o conteúdo do trabalho – por exemplo, ele não conferirá somas, nem se os autores citados estão nas referências bibliográficas (alguns fazem, mas cobram a mais por isso), nem se as conclusões feitas pelo autor do trabalho estão corretas. Sua função é, de fato, corrigir o texto a nível de linguística.

Este profissional, em geral, é formado em Letras ou Jornalismo, profissionais que habitualmente têm escrita perfeita e plena noção das normas da Língua Portuguesa (ao menos, deveriam). Após submeter o trabalho a uma rigorosa revisão, devolvem o texto corrigido para o autor, bem como um comprovante assinado atestando que a correção daquele trabalho e autor foi devidamente feita. Este comprovante é necessário caso algum erro seja localizado posteriormente.

Só após esta correção é que o trabalho está pronto para ser impresso e enviado ao orientador e aos revisores.

… Eu que aprenda a levantar

Na dúvida da compra de uma monografia, a correção da monografia sobra para aquele amigo mais culto.Dependendo do número de páginas, uma revisão linguística de monografia ou até a compra (que ainda é muito utilizada para casos extremos) pode alcançar valores acima do esperado. Como o valor assusta a maioria dos estudantes de graduação, muitos dão preferência por enviar o texto a um amigo que tenha boa escrita, ou a aquele que “erra de vez em quando, mas escreve direitinho”. Obviamente, estes amigos não são profissionais de revisão linguística, então não terão como emitir um certificado oficial, regulamentado. Por sorte, no caso da monografia não é obrigatório que haja essa revisão com certificado.

O problema de enviar a amigos não gabaritados é que muitos erros podem passar tanto por falta de atenção quanto por falta de conhecimento. Erros crassos, inclusive, aqueles que parecem ter sido escritos em neon na folha. E é aí que surgem pérolas como “pesquiZar”, “ksa”(vício de chat de internet), “voÇê”, “cáUculo” e assim por diante. Quando não são palavras erradas, são erros de concordância como “assim como se veem um exemplo semelhante” e outras aberrações.

Pode ter certeza, erros menos gritantes do que esses são notados pelos examinadores – erros monstruosos, então!… Com certeza serão observados! E isso será comentado no dia da apresentação, o que significa que você e seu orientador, que aparentemente não reparou estes “pequenos probleminhas”, serão cobrados em relação a isso. Quando acontecer, assuma os erros e se disponha a corrigi-los.

A monografia tende a ser menos valorizada em virtude de ser um trabalho desenvolvido por um estudante de graduação que, teoricamente, não domina muito sobre aquele assunto. Entretanto, ela não deixa de ser um trabalho científico, preparado com cuidado e dedicação e submetido à avaliação rigorosa de um quadro de examinadores estudiosos da área. É a primeira incursão do aluno no mundo das pesquisas acadêmicas e – pode acontecer – um trabalho aparentemente tão simples pode ter participação importante em pesquisas futuras, especialmente quando ele levanta uma hipótese ainda não estudada, mas de reconhecido valor acadêmico e científico. Sim, uma monografia pode influenciar o mundo dos cientistas! Assim a gente até anima, não é?